Começo de manhã. Acordei. Muito frio. Lama na rua sem calçamento. Rio Canta Galo cheio. Tomei café. Sai para ver o aguaceiro. Numa das casas vizinhas à minha um rádio tocava: "Quem era eu, quem eras tu, quem somos agora? Companheiro de outrora, inimigos do amor". Núbia Lafaiete. Quase ninguém se atrevia a sair de casa. Vi Neco de Maçu na janela de casa. Mais à frente Chico Frade empunhava um jereré. Ele ia pescar. O rio Canta Gala prometia bons peixes naquele momento. Pés no chão. Um escorregão aqui e outro ali, mas chegou ao rio. Ele escolheu uma parte do rio onde a água passava como uma correnteza. Enfiou seu jereré e ficou a esperar. De vez em quando levantava o jereré, metia a mão dentro de mesmo e retirava os peixe que ficavam presos naquele instrumento de pesca. Agora ele jogou algo comprido num banco de areia. De longe não deu para ver direito, mas provavelmente se trata de um mussum, peixe alongado como uma cobra, uma enguia de água doce. De repente seu Chico larga o jereré e sobe no banco de areia, domina o mussum e o coloca no bornal.
Agora eu fiquei todo interessado em ir ver de perto a pescaria. Saí e fui. Logo eu vi aquele homem tirando de dentro de seu jereré: curimatã, acará, traíra, piaba, jundiá, jacundá, piau, camarão. Era uma fartura de peixe aquele rio. Era uma verdadeira fonte de alimento, naquelas águas. Meu Deus quanto peixe!
Mais tarde o meu pescador preferido tinha mais companhias. Mais pessoas se juntava, com jererés. Uma chuvinha começava a chegar, mas ninguém nem se apercebe. Aquela chuva aumenta, mesmo assim ninguém está nem aí! Mais em cima, no rio, alguns chegam com anzóis de vara e começam, também, a pegar seus peixinhos. Entre eles está Bio Correia e Auri, também conhecido como Barroso. Ambos puxam algumas traíras e logo se vão, satisfeitos com a pescaria. Mais na frente algumas crianças brincam com uma bola de meia. Zé Belo, Duda de Bagunça, Nivaldo Leite, Tiziu e outros adolescentes pulam da boeira, que passa por baixo da rua Coronel Francisco Honório, como se pulassem de um trampolim, caindo no poço que ficava à frente da mesma. Mais gente chegava para participar daquela que era uma festa, quando chovia. Enchente no Cantagalo era sinônimo de festa.
A serra de Mandu começava a ficar coberta de um nevoeiro, uma serração, como chamavam os mais velhos.
a medida que ia se chegando ao meio dia, a meninada de minha rua começava a chegar para tomar banho naquela enchente. Água doce. Limpinha. Novinha. Acabava de cair do céu. Como eu não tinha mesmo o que fazer, eu aproveitava aquilo tudo como se não houvesse amanhã. Aquilo era um céu. Um paraíso.
Começava a me dar fome. comecei A me dirigir para casa, que ficava a alguns passos dali. Atravessei a rua e pronto: estava na calçada de casa. Chico Belo preparava um porção de rapé. Ele cheirava aquele fumo minuciosamente ralado. E até que tinha um cheiro bom quando ele estava preparando. Calça enrolada até no meio da canela, camisa aberta, mostrando o peito, uma voz estridente e aguda. Ele era ferreiro. Fazia enxadas, foices e outros apetrechos para os agricultores locais. Era meu vizinho e pai de Loura Belo, Terezinha Belo, Maria Belo e Zé Belo. Eles foram criados como se fossem meus irmãos. Eu os tinha como meus irmãos, até porque eu era filho único e eles me acolhiam como um da família.
Entrei em casa. Minha mãe cuidava dos afazeres da casa. Meu pai sentado num tamborete junto à janela, ficava olhando tudo como se não fizesse parte daquele cenário. Aliás era assim que ele se sentia. Alheio àquela realidade. Me sentei na minha rede, que ficava na sala. Me levantei fui à cozinha. Minha mãe manuseava um pedaço de bacalhau que seria a mistura daquele dia. O fogão de lenha a todo vapor. Fumaça para todos os lados. Fui até o quintal. Muita lama. O cacimbão esta com água até a boca. Parei embaixo do pé de graviola. Olhei e vi muitas flores. Era a estação do florescer daquela fruteira. Voltei. Entrei em casa. Agora o cheiro de bacalhau assado tomava toda a cozinha. Um pouco depois nos sentamos na mesa e almoçamos. Meu pai tinha um costume de ao terminar as refeições, colocar um pouco de farinha na boca como se estivesse limpando os dentes daquela refeição.
Terminada a refeição eu volto para o rio, que agora estava repleto de pessoas tomando banho. De crianças a adulto aquele manancial estava cheio.
Terminado o dia, a noite chega e eu me recolho para casa. Meu pai era muito severo com a minha criação. Noite não era coisa de criança. Dizia ele. Seis ou sete horas eu já estava dormindo. Rede fria, lençol fino, dezesseis ou quinze graus centígrados. Não era brincadeira as noites de inverno ali. Eu me encolhia todo para ver se escapava. Mas não tinha problema, pela manhã aquele frio passava. e Começava tudo de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário