sábado, 29 de agosto de 2015

ÉRAMOS FELIZES E NEM SABÍAMOS






          Mês de agosto dos anos sessenta. Me acordo, vejo meu pai à janela. Não tenho coragem de me levantar. Fico deitado por um tempo em minha rede estendida na sala, onde sempre dormi. Ouço algumas vozes de transeuntes que se dirigiam ao trabalho árduo da agricultura, fonte de renda destes dias. Meu gato sobe na rede meio que querendo se aquecer no meu lençol. Coragem que era bom eu não tinha para me levantar. Até porque era o período de frio. Muito frio. Contudo um cheirinho vinda da cozinha me desafiava a levantar. Era minha mãe fazendo o café da manhã. O cheiro do café juntava-se ao cheiro do pão de peso. Pão de peso era um pão enorme, também chamado de bolachão ou pão de festa. Ele era temperado com ervas cheirosas. Como cheirava. Criei coragem e me pus de pé. O chão da casa era de tijolos à vista. Não tinha cimento nem ladrilhos. Na cozinha pude ver o que se tinha para comer. Compensou ter-me levantado. O frio era tão grande que minha mãe me levantou e sentou-me num caixote de sabão comum bem perto do fogo, em cima do fogão. Terminado o preparo do café minha mãe me levou para a mesa, chamou meu pai e comemos aquilo ali. Meu cabelo ficou cheirando a fumaça do fogo de lenha.
          Abri a porta, fui até o portão o escancarei-o e vi a rua em que morávamos. Pouca gente se movia nela. Uma névoa cobria a serra de Oscar e a serra de Seu Mandu, pai de Edmundo. Era névoa para todo lado. Quase não se via nada. O sol deu as caras, mas não o víamos, a cerração o escondia. 
          - Bom dia. Disse alguém ao meu pai.
          - Bom dia. Respondeu ele
          Observei como saiu fumaça da boca de ambos.
          Quase nenhuma criança na rua, devido ao frio e até porque era ainda bem cedo.
          O rio Cantagalo, que passava na frente de minha casa, estava com as águas turvas, pois havia chovido dias atrás. Nele podia-se ver que alguém estava a pescar. Vara na mão aquele pescador estava satisfeito, pois estava com uma enfieira repleta de peixes.
          A rua, que não tinha calçamento, estava cheia de lama e poças d'água. Era uma cena apocalíptica. Ninguém na rua. Tempo frio, névoa e uma penumbra que fizera com que as galinhas não descessem dos seus poleiros.
         Saí e resolvi descer um pouco mais à rua Francisco Honório, mas não fui muito longe. Senti um certo vexame. Só não me assombrei mais porque um som vindo de um pequeno rádio de pilhas me fez lembrar de um outro dia qualquer. Me aproximei e ouvi a melodia e a canção que dizia: "Boemia, aqui me tens de regresso e humildemente te peço a minha nova inscrição"... Olhei e vi que era Um certo Zé Barbosa, pai de Maria Barbosa, velho festeiro que morava em minha rua.
          Voltei, peguei um anzol e fui para o Cantagalo pescar. Pesquei um bom bocado de peixe e voltei para casa.
          Agora me pareceu meio dia. O sol ainda não dera as caras. Minha mãe ascendia o fogo. Era fumaça para todos os lados. A lenha não estava totalmente seca. Era preciso abanar muito até o fogo levantar-se. O teto da cozinha era totalmente preto de tanta fumaça. Como a comida era só feijão, alguns peixes e um bocado de carne, logo logo o almoço estaria pronto. E foi o que aconteceu de repente estávamos almoçando. Meu pai, como era de costume, depois de comer pegava um pouco de farinha, punha na boca e comia, como se estivesse higienizando a boca. Ninguém sabia o que era creme dental. Mas eu achava aquilo muito estranho.
          Agora era tarde. Meu pai não trabalhou naquele dia. Estava assentado à mesa. Quatro tamboretes fazia parte da mesa. Meu pai estava assentados sobre um dos tamboretes. Nesse tempo só os ricos tinham cadeiras na mesa. Chico Belo, que era nosso vizinho, era ferreiro e estava batendo ferro em sua bigorna. Agora algumas pessoas atravessavam a rua Francisco Honório, onde eu morava. Neco de Maçu, Otacilio e Zé machado e suas respectivas esposas, juntamente com outras pessoas jogavam peteca, em plena rua, ainda meio lamacenta. Era uma festa aquele jogo. De repente apareceram alguns torcedores.
          Chega a noite e a cidade não tinha energia elétrica ainda. Em cada casa se punha um candeeiro nas janelas e a rua ficava até certo ponto iluminada. Aqui e acolá uma grupo de criança brincava sob os olhares dos pais. Pessoas iam e vinha em todas as direções. Numa das calçadas alguém tocava um violão desafinado que dava dó. Minha mãe, Dona Nila esposa de Chico Belo e outras mulheres conversavam na calçada de pedra de minha casa. Seu Bagunça, outro vizinho nosso, fazia todo mundo rir com suas bagunça, jeito de ser que lhe fez jus ao apelido. Bagunça era a alegria de nossa rua.
          A noite já estava avançada e os pais começavam a chamar seus filhos. Eu estava suado que pingava, mas mesmo assim ia dormir. Banho que era bom só no outro dia,no rio Cantagalo, que ainda estava com água nova, limpinha. Corri para casa agarrei na saia de minha mãe, entrei e cai na rede onde estava dormindo logo em seguia.
          A madrugada chega e com ele o aumento do frio. A rede parecia uma geladeira. Eu me encolhia o máximo que podia, mas não adiantava nada. Os pés e as mão começavam a ficar dormentes de tão gelada. Senti meu gato cair dentro da rede, o que até ajudou a diminuir o frio. De repente me veio a vontade de fazer xixi, mas não tive coragem de me levantar e ir à casinha, era assim que se chamava o banheiro. Esse banheiro ficava no fundo do quintal, era o costume da época: fazer a casinha no final do quintal. Além do mais estava muito frio, os candeeiros apagados, a rede e o lençol foram as vítimas. Sobrou para eles, me segurei, mas adormeci e mijei nos mesmos. Aí o frio aumentou mesmo; mas era o jeito suportar a madrugada congelante. Mesmo com essas condições apaguei. Ah! e o gato já havia apagado antes de mim, pois o vi fazer aquele som característico de quando dormia: truuuuuuu, Truuuuu, truuuuuu. Parecia uma máquina. 
                 

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